Carta aos amigos e às amigas

Num momento em que a Margarida ainda não tinha diagnóstico mas estava visivelmente debilitada, com o decaimento no desenvolvimento muito acentuado, o Zé enviou a algumas amigas e amigos a seguinte carta:

“Meus queridos amigos

Há momentos da nossa vida em que temos uma hiper necessidade de verbalizar e exteriorizar aquilo que vai nos vai na alma. Hoje, numa estranha calma, sentimos que era um desses dias.

Os últimos dois anos, têm sido de uma inconstância e violência difíceis de imaginar. Poucos são aqueles que conscientemente decidiriam que o problema que nos afeta não é, nem seria somente nosso. Poucos abririam a porta de casa à dor alheia, poucos chamariam para si a partilha do desespero, poucos se aproximariam de uma forma tão calorosa e positiva, poucos saberiam inverter o negativismo,  poucos, mas  mesmo muito poucos seriam como vós.

Tal só pode ser explicado como uma revelação da maior amizade que o mundo conheceu e poderá conhecer.

Temos aprendido, nos últimos tempos, que para além de fazermos sentir a nossa gratidão devemos também expressá-la de uma forma muito objetiva. É por isso que vos agradecemos a forma como aceitam a nossa amizade e dor, é por isso que vos agradecemos a vontade que têm de estar connosco mesmo pensando que poderá acontecer algo de instável e imprevisível,  é por isso que vos agradecemos a mesa posta e o jantar pronto quando saímos de cabeça esgotada das consultas tardias, é por isso que vos agradeço aqueles momentos calorosos em que nada se diz e em que tudo é dito, é por isso que vos agradecemos o bom humor contagiante, é por isso que vos agradecemos o café no momento mais negro, é por isso que vos agradecemos a fuga na hora certa, é por isso que vos agradecemos as vezes que ela adormece no vosso colo e o facto de se sentir tão confortável, é por isso que vos agradecemos a calma que nos dão, é por isso que vos agradecemos as lágrimas que nos limpam, é por isso que agradecemos que no meio da dor, nos façam sentir tão afortunados.

É por tudo isto que um obrigado não chega nem nunca chegará…”