A Couve Bordalo Pinheiro e os óculos cor de rosa

A Couve Bordalo Pinheiro e os óculos cor de rosa

A primeira vez que nos apresentaram o conceito dos “óculos cor-de-rosa” estávamos com um conjunto de pais e psicólogos do programa “os anos incríveis”, um grupo inesquecível, porque pensávamos que os primeiros problemas que a Margarida apresentava eram comportamentais.

Falavam connosco para não valorizarmos excessivamente os pequenos problemas e mencionavam sempre o foco nas questões positivas:

– Quando elas/eles vos levarem ao limite,  coloquem os “óculos cor de rosa”, diziam.

Isto foi tudo muito antes de a Margarida ter um diagnóstico. 

Depois de ser conhecida a doença eu e a Inês começamos a ver tudo o que a Margarida fazia como consequência orgânica da doença e nada de comportamental: colocámos os “óculos cor-de-rosa inconscientemente e de forma permanente.

 Todos os dias se partem coisas: pratos, copos, telefones, televisões, etc… nada parece resistir à terrível quebradora de objetos – a Margarida a temível! Até já temos um código de alarme que todos usamos em casa: “ALERTA MARGARIDA!” E todos vamos em socorro do ataque da temível. ?

O momento em que escrevo estas linhas decorreu uns minutos após  a famosa couve do Bordalo Pinheiro ter o mesmo destino que os objetos que referi. Aquela couve que a Inês adorava e que a tornou tão feliz no momento em que a recebeu de presente de aniversário.

No momento em que a temível Margarida tornou a couve em cacos, a Inês olhou pra mim e disse a sorrir: “Ai a minha rica couve!” …. e neste sorriso estava todo um mundo de tolerância e amor. Algo que nunca teríamos descoberto de outro modo…